Tenho notado um crescente descaso dos cidadãos de Belém com o bem-estar do próximo, principalmente no trânsito. Não é raro vermos motoristas que param em cima da faixa de pedestres quando o sinal fica vermelho, isso quando resolvem parar, pois outra coisa que se tornou bastante comum é o ato de “furar” o sinal, mesmo quando ainda é dia claro. O motivo disso? Medo? Insegurança? Pressa? Ou a simples vontade de desrespeitar as leis e pôr a vida de muitos, e também a sua própria, em risco? Não sei dizer.
E o que falar daqueles impacientes ou imprudentes que, em meio a um engarrafamento, aproveitam o último segundo de sinal aberto para colocar seus veículos no meio da rua, na ânsia de garantir que, tão logo a fila ande, não terão que esperar novamente pelo verde do semáforo para seguir viagem, não importando quantos outros carros ficarão impossibilitados de trafegar no cruzamento “trancado”?
Somos muito severos para reclamar da corrupção dos governantes, em apontar os erros dos administradores, em criticar o trânsito caótico cotidiano. Mas não reparamos que tudo o que atinge a sociedade também começa nela, é um ciclo. Assim como somos culpados de eleger incompetentes e corruptos para cargos públicos, também somos responsáveis pelo trânsito que piora a cada dia. Pare e pense, será que se não estacionássemos em lugares proibidos, se não avançássemos sinais fechados, se acionássemos o alerta toda vez que mudássemos de pista ou ao fazer uma curva o trânsito não seria melhor?
É no mínimo trágico o pensamento de sair de casa e não ter a certeza de que se chegará à esquina ainda com vida. Como se não bastasse a ameaça de marginais que se multiplicam diariamente por culpa do não investimento em segurança por parte de nossos governantes, o cidadão também precisa estar atento ao terror dos motoqueiros que costuram sua passagem em meio aos automóveis, aos motoristas de ônibus que não se mantêm nas faixas devidas e aos outros indivíduos que dirigem seus veículos sem o mínimo de respeito pelos demais, como se guiassem em ruas desertas.
Todos esses fatos talvez sejam o reflexo de uma desistência geral, de uma desilusão. Vivemos em um país no qual os interesses de um pequeno grupo vêm quilômetros à frente das reais necessidades da sociedade. O cidadão comum, trabalhador, não percebe a relevância do seu grito em meio ao barulho ensurdecedor do descaso governamental. E esse cidadão está se cansando da promessa de que amanhã será um novo dia, ele já não acredita mais que dias melhores virão.
Precisamos enxergar que, se queremos viver bem, precisamos primeiro respeitar todos que nos rodeiam. Chega de deixar o carro em frente a passagens ou vagas reservadas para os que têm necessidades especiais, de estacionar em fila dupla na frente de bares e casas noturnas, de avançar em sinais fechados de madrugada sem ter a certeza de que não virá um outro veículo na rua que vamos avançar. Ao final do dia tudo o que queremos é chegar bem em casa e estar com os que nos são caros. Então, trabalhemos para que os outros também recebam tudo aquilo que desejamos para nós.
Mais do que o respeito às leis de trânsito, o respeito ao próximo é fundamental para uma sociedade que deseja viver em segurança. Para ser cidadão é necessário cobrar seus direitos e exercer os seus deveres. Isso se chama cidadania e lamentavelmente nós não temos visto isso sendo levado a sério pela população que deveria, isto sim, primar pelo cumprimento de seu dever, que é tão pouco.
Este texto foi originalmente publicado no jornal O Liberal do dia 21/11/09