No último dia 26 eu e minha namorada completamos oito meses juntos. Eu, muito romanticamente, levei-a para assistir um show… do Ultraje a Rigor. Tudo bem não há nada de romântico nisso, mas era uma apresentação única na Fiesp da Paulista e calhou de ser justamente no dia 26, fazer o que?
O negócio é o seguinte, já há algum tempo eu estava querendo escrever sobre o Ultraje, que é uma das minhas bandas favoritas, e fazer uma afirmação que talvez seja óbvia para alguns e talvez esdrúxula para outros. Aqui vai: O Ultraje a Rigor é, sem discussão, uma das bandas com letras mais inteligentes dos anos 80.
Estranho? Eu explico:
Analisando os meios de comunicação em massa e o reflexo destes na sociedade contemporânea, podemos ver que as letras do Ultraje são muito mais do que uma audição/leitura bastante superficial classificaria como, no máximo, divertida ou falando português claro, besteirol.
É óbvio que a maioria das músicas é engraçada. O que conta mais pontos para a esperteza de Roger Moreira, compositor e vocalista da banda, que, muito inteligentemente, sabe como as coisas funcionam e resolveu infiltrar sua ideologia em um rock’n’roll aparentemente, e só aparentemente, descompromissado.
Fundamentos? Aqui estão:
Pelado é uma música cujo objetivo é incitar o não uso de vestimentas por parte da sociedade em geral, incluindo seu pai, sua mãe, seu avô e sua tia? Pode ser, mas também é uma crítica ao pouco caso dos governantes (e também da sociedade, porque não?) em relação à cultura, alimentação, saúde e moradia do povão. Isso tudo em 1987, mais de vinte anos se passaram e parece que a barriga pelada ainda é a vergonha nacional.
Inútil. É uma porrada atrás da outra, sobre um povo que não consegue falar corretamente, se cuidar, ascender profissionalmente, pagar as contas e nem escolher presidente. Acho que já ouvi essa história antes.
E Nada a Declarar? (ou, como o Roger mesmo disse no show da Fiesp, a música mais conhecida como Cu) Essa decididamente é uma música que não tem conteúdo algum, feita num momento no qual a banda estava apagada, certo? Errado! Ela saiu pela primeira vez no álbum ao vivo 18 Anos Sem Tirar, de 1998. Roger reclama da baixaria generalizada, dor de corno e bunda pra todo lado (e olha que as mulheres-fruta ainda não tinham sido inventadas) que predominava na indústria fonográfica da época e, só para não sair por baixo, no final ainda enfia um palavrão: Cu!
Eu poderia continuar falando de outras músicas, como Rebelde Sem Causa, Sexo, Filha da Puta, dentre outras, mas acho que já deu pra entender meu ponto. Portanto, repito mais uma vez: Roger Moreira e sua trupe entendem muito bem da relação comunicação/sociedade e tiram o maior proveito disso. Quanto a mim, ainda tenho muito que estudar sobre essa relação. Só me resta desejar vida longa ao Ultraje a Rigor.