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Arquivo da categoria ‘Textos Rápidos’

Sugestão para o dia das mães

Publicado por Gabriel Lage Neto em 06/05/2009

Neste dia das mães o melhor presente que você pode dar para a sua é este: nenhum. Quero dizer, nenhum presente material, nada do que anunciam incansavelmente na televisão que sua querida mãe merece. Nada de celulares, aparelhos de DVD, sapatos, roupas ou jóias, isso é papo furado de publicitário.

No lugar dessa parafernália supérflua e sem valor dê o que toda mãe quer de verdade, tudo bem, algumas até valorizam essas bobagens supérfluas, mas com certeza também apreciarão imensamente o que você tem a dar: amor.

No final das contas, todos os bens materiais exaustivamente comprados e pagos naquelas parcelas a perder de vista só dão alegria mesmo para as mães dos seus fabricantes e revendedores. A alegria da sua mãe por receber o presente dura o que? Na melhor das hipóteses, se ela gostar do que ganhou, um mês, ou até o celular quebrar, a roupa manchar e o sapato perder o salto, o que acontecer primeiro.

Amor de filho é um bem imperecível, com garantia pra vida toda e mais um pouquinho. Transforme esse dia criado pelo capitalismo apenas com o fim de lhe endividar e ganhar mais um dinheirinho em uma oportunidade de demonstrar seu carinho por sua mãe.

Ficamos combinados assim, então: Esqueça os shopping centers lotados e dedique o dia inteiro somente àquela que lhe ama com ou sem presentes nas mãos. No final ficará a certeza que dinheiro nenhum pode comprar, mesmo com todas as diferenças e desacordos, o amor de mães e filhos é um dos mais valorosos existentes.

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Adeus Ano Velho

Publicado por Gabriel Lage Neto em 01/01/2009

Sempre digo que as únicas informações que eu guardo na memória são as besteiras sem valor algum. A maioria das coisas que são realmente importantes ou interessantes eu acabo esquecendo.

A prova disso é que eu estava pensando em algo para escrever neste novo ano e me lembrei daquela detestável e grudenta música de fim, ou começo, de ano da Rede Globo, que começa assim: Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou. Sempre tive um problema com essa música, devido aos seguintes versos: Nesses novos dias, as alegrias, serão de todos é só querer. Todos nossos sonhos serão verdade, o futuro já começou.

O que mais me incomodava, e ainda incomoda, bem menos, é verdade, mas incomoda, nem é o fato de ela dizer que todos serão alegres, basta querer, o que para mim é uma sacanagem das grandes com os maníaco-depressivos. O que realmente me incomodava era a pressão, talvez existente só na minha cabeça, para que todos se esforçassem para concretizar seus sonhos, pois o futuro já está aí, batendo na sua porta, e quando você menos perceber vai estar velho e não vai ter realizado porcaria nenhuma na vida, seu idiota. Ok, se todos os sonhos serão verdade, desejo parar de querer escrever textos pseudo-engraçadinhos e descambar no pessimismo-fundo-de-poço.

Para fugir um pouco desse pensamento, forcei a memória e me lembrei de outra canção bastante apropriada para esta época do ano, que também sempre achei meio melancólica: Mais um ano vai, mais um ano vem, rolou tanta coisa e tudo bem. Se você pensou e não realizou, tudo se resolve no ano que vem. Pra recomeçar, pra comemorar, paz, muita saúde e amor também. Apesar da melancolia é uma música até bacana, talvez exista uma luz no fim do túnel mesmo. Munido de bons pensamentos, entrei na Internet e fui pesquisar a sua procedência, coisa que foi, infelizmente, mais fácil do que eu imaginava. Trata-se de um antigo jingle de cerveja, cujos versos finais são deploráveis: E muita grana, trabalho, fama. É o que a Brahma vem desejar.

Desisto de relembrar canções pertinentes e apenas quero desejar a todos um feliz 2009, cheio de paz, amor, felicidades, fartura, saúde e tudo de bom. E também menos televisão ruim e mais livros interessantes para os nossos olhos e menos, bem menos, jingles publicitários e mais músicas de qualidade para os nossos ouvidos.

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Regina Casé e a inclusão digital

Publicado por Gabriel Lage Neto em 17/11/2008

É engraçado (leia-se trágico) como a Regina Casé consegue fazer uma leitura otimista das realidades brasileiras mais tristes. Eu estava vendo um pedaço do Fantástico ontem a noite e coincidiu justamente de ser na hora do quadro apresentado por ela, o Central da Periferia. O quadro foi sobre lan houses, salas de acesso à Internet, que parecem se reproduzir assustadoramente nas periferias do Brasil. A apresentadora narrou toda pimpona o sucesso de um ex-porteiro que conseguiu migrar para uma classe econômica melhor quando abriu uma lan house, dentre outras histórias de outros empresários do meio igualmente bem sucedidos. Palmas para esses empresários que conseguiram se virar e obter sucesso com seus empreendimentos, o que é extremamente difícil em um país como o nosso.

O problema é que a matéria foi completamente falha quando não só ignorou que essas salas são uma das causas mais fortes da evasão escolar e desencaminhamento de menores, como, em alguns momentos, afirmou justamente o contrário. Não digo isso sem embasamento, é fato no Orkut o número de pré-adolescentes não só habitantes da periferia, mas provenientes de todas as classes socio-econômicas, escrevendo um português macarrônico, postando fotos semi pornográficas e trocando mensagens com adultos não muito bem intencionados.

Não tenho a informação se existe uma legislação sobre o acesso de menores a lan houses, sei que na maioria é obrigatória a apresentação de RG, não sei como funciona na periferia e o programa não se importou em abordar o assunto.

Eu preferia, definitivamente, quando a Regina Casé fazia aquele programa humorístico com o Luiz Fernando Guimarães e não morava em um mundo cor-de-rosa onde tudo é digno de aplauso.

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Ultraje Completo

Publicado por Gabriel Lage Neto em 06/10/2008

No último dia 26 eu e minha namorada completamos oito meses juntos. Eu, muito romanticamente, levei-a para assistir um show… do Ultraje a Rigor. Tudo bem não há nada de romântico nisso, mas era uma apresentação única na Fiesp da Paulista e calhou de ser justamente no dia 26, fazer o que?

O negócio é o seguinte, já há algum tempo eu estava querendo escrever sobre o Ultraje, que é uma das minhas bandas favoritas, e fazer uma afirmação que talvez seja óbvia para alguns e talvez esdrúxula para outros. Aqui vai: O Ultraje a Rigor é, sem discussão, uma das bandas com letras mais inteligentes dos anos 80.

Estranho? Eu explico:

Analisando os meios de comunicação em massa e o reflexo destes na sociedade contemporânea, podemos ver que as letras do Ultraje são muito mais do que uma audição/leitura bastante superficial classificaria como, no máximo, divertida ou falando português claro, besteirol.

É óbvio que a maioria das músicas é engraçada. O que conta mais pontos para a esperteza de Roger Moreira, compositor e vocalista da banda, que, muito inteligentemente, sabe como as coisas funcionam e resolveu infiltrar sua ideologia em um rock’n’roll aparentemente, e só aparentemente, descompromissado.

Fundamentos? Aqui estão:

Pelado é uma música cujo objetivo é incitar o não uso de vestimentas por parte da sociedade em geral, incluindo seu pai, sua mãe, seu avô e sua tia? Pode ser, mas também é uma crítica ao pouco caso dos governantes (e também da sociedade, porque não?) em relação à cultura, alimentação, saúde e moradia do povão. Isso tudo em 1987, mais de vinte anos se passaram e parece que a barriga pelada ainda é a vergonha nacional.

Inútil. É uma porrada atrás da outra, sobre um povo que não consegue falar corretamente, se cuidar, ascender profissionalmente, pagar as contas e nem escolher presidente. Acho que já ouvi essa história antes.

E Nada a Declarar? (ou, como o Roger mesmo disse no show da Fiesp, a música mais conhecida como Cu) Essa decididamente é uma música que não tem conteúdo algum, feita num momento no qual a banda estava apagada, certo? Errado! Ela saiu pela primeira vez no álbum ao vivo 18 Anos Sem Tirar, de 1998. Roger reclama da baixaria generalizada, dor de corno e bunda pra todo lado (e olha que as mulheres-fruta ainda não tinham sido inventadas) que predominava na indústria fonográfica da época e, só para não sair por baixo, no final ainda enfia um palavrão: Cu!

Eu poderia continuar falando de outras músicas, como Rebelde Sem Causa, Sexo, Filha da Puta, dentre outras, mas acho que já deu pra entender meu ponto. Portanto, repito mais uma vez: Roger Moreira e sua trupe entendem muito bem da relação comunicação/sociedade e tiram o maior proveito disso. Quanto a mim, ainda tenho muito que estudar sobre essa relação. Só me resta desejar vida longa ao Ultraje a Rigor.

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