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O exemplo dos promesseiros do Círio de Nazaré

Publicado por Gabriel Lage Neto em 28/10/2009

No dia 11 de outubro, calculadamente dois milhões de pessoas foram às ruas para demonstrar sua devoção à Nossa Senhora de Nazaré. Dois milhões que acompanharam a berlinda que levou a pequena santa da Catedral até a Basílica de Nazaré. Dois milhões que puxaram a corda ou que simplesmente caminharam pelo percurso entre os dois templos. Dois milhões que estiveram ali para agradecer, pedir, orar e ajudar. Não há ser humano que não se emocione diante de tais atos.

Esses dois milhões de pessoas, não só paraenses, não só brasileiros, sofridos e cansados que puxaram a corda da berlinda que levava a santinha, que carregaram sobre as suas cabeças pequenas casas, tijolos e órgãos de cera, que levavam nas mãos terços, orações e velas, que rezaram e cantaram durante a caminhada, apesar de serem extremamente diferentes, possuem muita coisa em comum. Cada um crê que as melhorias que precisam em suas vidas serão providas por Nossa Senhora.

Digo que são extremamente diferentes por que, não só em nosso estado, mas em nosso país, existe um abismo que separa as classes socioeconômicas, abismo este criado e mantido pelos que estão no poder. Porém, em Belém do Pará, pelo menos em um dia do ano, esse abismo desaparece e todos se tornam iguais. Os que assistem a procissão realmente são testemunhas de um verdadeiro milagre: nas horas que separam a saída da Sé e a chegada à Basílica de Nazaré, só o que se vê é solidariedade. Promesseiros ajudando promesseiros, voluntários que trabalham na Cruz Vermelha, centenas de pessoas que distribuem água aos fiéis, algumas por promessa e outras apenas pelo ímpeto de fazer uma caridade. Não há dinheiro ou etnia que atrapalhe.

O povo tem fé e confia na intercessão de Nossa Senhora de Nazaré junto a Deus para resolver, ou ao menos amenizar, suas mazelas. E eles ajudam, e muito, os que a eles recorrem. Mas para isso Nossa Senhora de Nazaré e Deus utilizam uma ferramenta indispensável: o próprio homem. Por isso, esse espírito de solidariedade não deve se restringir apenas a um domingo do mês de outubro, os cidadãos precisam continuar querendo bem e ajudando o próximo sem se importar com suas origens e, principalmente, os governantes devem ver o muito que ainda é preciso ser feito por esse povo que toma as ruas.

Não é preciso ser onisciente para saber do que o povo precisa: trabalho, segurança, saúde e educação. Está muito claro e só não vê, e não resolve, quem não quer. Dois milhões de pessoas é um número muito pequeno em relação à população de nosso país, mas deveria ser o suficiente para chamar a atenção dos que governam para o que tem que ser feito.

Duas semanas depois do segundo domingo de outubro, a santinha volta ao seu nicho, onde fica durante todo o ano, no Colégio Gentil Bittencourt. A imagem de Nossa Senhora de Nazaré que fica na Basílica Santuário sobe ao Glória. E novas demonstrações de fé, novos agradecimentos e novos pedidos por graças em busca de dias melhores voltamos a testemunhar. É como se nós, paraenses, estivéssemos vivendo o nosso Ano Novo, pois só daqui a um ano teremos novamente o nosso Natal, a santinha volta a ser reverenciada e é Círio novamente.

Seria ótimo se todos os governantes do Brasil pudessem assistir ao Círio de Nazaré e testemunhar os atos de fé, devoção, agradecimento e solidariedade popular. Quem sabe aprendessem alguma coisa com o exemplo dos promesseiros, talvez percebessem o peso da responsabilidade que têm nas mãos e que a solução de muitos problemas não requer um milagre muito poderoso, apenas trabalho. Infelizmente é improvável que os responsáveis pela situação na qual nosso estado e nosso país se encontram se sentissem tocados pela perseverança, pela força e pela crença do povo, pois é impossível crer que quem se beneficia à custa de tanta gente sofrida ainda possa ser considerado humano.

* Este texto foi originalmente publicado no jornal O Liberal do dia 24/10/09

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O que realmente importa

Publicado por Gabriel Lage Neto em 14/09/2009

Há poucos dias eu estava em uma reunião religiosa onde estava sendo discutida a parábola do filho pródigo. Primeiramente foi feita a leitura e ao final alguns dos presentes deram suas interpretações sobre a mensagem contida naquela narrativa mitológica. Faço aqui um breve resumo para os que não estão familiarizados com a história: havia um senhor que tinha dois filhos, certo dia o mais novo deles pediu sua parte da herança e partiu para longe. Após gastar tudo o que tinha e sem ter o que comer, decidiu voltar e pedir o perdão do pai, mesmo que para isso tivesse que se humilhar. Ao ver o filho retornando, o pai mandou que lhe vestissem com as melhores roupas, que matassem um cordeiro e que fizessem uma festa. Ao presenciar tudo isto, o filho mais velho ficou indignado, ao perceber sua revolta, o pai fez questão de lhe explicar: – Fiz tudo isso pois seu irmão, que estava perdido, foi reencontrado.

Aquela velha conversa de que nunca lemos o mesmo livro duas vezes, também se aplica aqui. Há muito tempo eu não ouvia essa história e dessa vez ela me trouxe uma mensagem diferente. Imaginem um pai que tem apenas dois filhos e vê o mais moço partir, se perder na vida. Com o passar do tempo, já sem esperanças de revê-lo, este lhe aparece com o juízo perfeito e com uma lição aprendida. O pai teve a garantia de que seu filho estava realmente bem, definitivamente de volta e para obter esta graça apenas precisou dar metade do que tinha. Nada além de bens materiais que não lhe dariam nenhum conforto caso seu filho tivesse morrido.

Esta é uma parábola muito interessante para o nosso tempo, no qual a abundância de dinheiro e posses é julgada fundamental por grande parte da sociedade. Na contramão deste pensamento quase unânime, o sociólogo paulista Cláudio Coelho afirma que o culto ao dinheiro e à propriedade não é inerente à nossa natureza, e sim uma criação histórica, que pode perfeitamente sumir.

Temos cada vez menos tempo, vivemos atarefados, preocupados com o acúmulo de renda, com as contas a vencer e não percebemos que estamos correndo em círculos. Parando um pouco para pensar, que lógica tem o consumo exagerado, seguido pelo trabalho incessante, seguido do sofrido pagamento das contas (geralmente em parcelas a perder de vista), que nos dá o pretexto de consumirmos novamente e começar tudo mais uma vez? Outra pergunta: por que muitos trabalham em empregos que nem ao menos lhes dão prazer, somente para ter um pouco mais de dinheiro para comprar ainda mais coisas, que no final nem são realmente necessárias?

A posse de muito dinheiro, ou de bens materiais que conferem status aos seus proprietários perante a sociedade, na verdade não é importante. O que importa é onde o indivíduo emprega sua renda, seja ela grande ou pequena. Gastar como bem entender o seu dinheiro é direito de todos, e não cabe a ninguém recriminar alguém pelo modo como gasta seus ganhos. Mas é no mínimo estranho, em uma realidade social como a nossa, alguém gastar centenas de reais em uma simples calça jeans, enquanto muitos não conseguem colocar um pão na mesa.

Já que nossos governantes não se importam, pois, como políticos que são, se interessam apenas em fazer política, façamos nós a nossa parte. Deixemos de lado o glamour do “ser” e do “ter” e, sem ligar para a crença, ou para a falta dela, aprendamos com a parábola do filho pródigo: Nem todo o dinheiro do mundo compra a paz de espírito que a certeza do bem estar de nossos semelhantes proporciona.

* Este texto foi originalmente publicado no jornal O Liberal do dia 14/09/09.

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Estamos fartos!

Publicado por Gabriel Lage Neto em 24/08/2009

De acordo com o artigo 5º da constituição federal, todos os brasileiros são iguais perante a lei, sem qualquer tipo de distinção. Sendo essa determinação de conhecimento público, é muito estranho que em nosso país, há bastante tempo, ocorram certos fenômenos que nos fazem duvidar da seriedade com que as autoridades encaram estas tão importantes determinações.

A ignorância sempre serviu de álibi para justificar as falhas. Em nosso país o “eu não sabia de nada” tornou-se praticamente um bordão de uso obrigatório daqueles que querem se desvencilhar de irregularidades cometidas. Alegando desconhecimento do que é correto, muitos já usaram e abusaram da ingenuidade e paciência de nosso povo: é dinheiro público que leva a família do político para o exterior, que banca o lazer da namorada famosa (que também não sabia de nada), que paga o salário do namorado da neta. Tudo sempre é perdoado sob a alegação de suposto ressarcimento dos valores ou de que essas coisas são normais, jogos do poder.

Atos como estes são punidos? Sim, esporadicamente. Porém, alguns anos depois, os envolvidos nessas nebulosas questões surgem novamente, como em um passe de mágica. Cumprem seu “exílio político”, geralmente passado no exterior, e refazem seu caminho do ostracismo até ao governo, como no princípio, erguidos pelos braços populares. Desmemoriados populares.

Por que isso acontece? Por que o indivíduo comum quando rouba é preso, torturado e até morre nas nossas superlotadas prisões, enquanto os engravatados de colarinho branco recebem afagos nas cabeças, tapinhas nas costas e continuam no poder? Será que a era dos jurássicos coronéis ainda não passou? Será que ainda se consegue ganhar no grito e na batida de pé? Diariamente o povo é atingido por acontecimentos que mostram quão demagogo o discurso governamental ainda consegue ser.

A impunidade dos políticos, estes cidadãos de imagem pública, acaba se refletindo nos indivíduos comuns e até naqueles que deveriam cuidar para que as leis fossem cumpridas por todos. Pouco a pouco vemos as sementes podres plantadas pelos poderosos germinarem no ventre da sociedade.

Indivíduos considerados “bem nascidos” roubando, agredindo, seqüestrando e matando já não são mais personagens de novela. São bem reais e estão mais próximos do que imaginamos. Profissionais respeitados e reconhecidos são autores dos mais revoltantes crimes.

Não podemos deixar que o poder seja um passe livre para burlar as leis, para ofender, humilhar e violentar quem quer que seja. A corrupção política serve de exemplo para o abuso de autoridade que serve de exemplo para a prática criminosa do cidadão. Todas estas práticas estão garantidas pela segurança da impunidade, pela falsa valentia escondida atrás do famoso “sabe quem eu sou?”.

Todos sabemos quem somos: indivíduos comuns, iguais perante a lei, sem nenhum tipo de distinção; brancos, negros, amarelos ou vermelhos; pobres ou ricos; homens ou mulheres. Somos iguais em direitos e obrigações. Nossa intimidade, honra e imagem são invioláveis. Possuímos livre pensamento e expressão. Diante de tanta impunidade, rejeitamos o anonimato e, todos juntos, declaramos publicamente: estamos fartos!

Este texto foi publicado originalmente no jornal O Liberal, no dia 21/08/09

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Individualismo e medo

Publicado por Gabriel Lage Neto em 12/08/2009

Uma das principais marcas da sociedade contemporânea é o individualismo. Os centros urbanos são caracterizados por reunir a maior parte da população de um país, e no meio desses milhões de pessoas, por mais que algumas tentem, nenhuma consegue ser igual à outra. Temos diferentes gostos musicais, diferentes crenças e religiões, diferentes modos de agir, vestir e de nos relacionar com o próximo.

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, as cidades sempre foram lugares onde convivemos diariamente e muito proximamente com estranhos, cuja maneira de pensar e intenções nós ignoramos. O que é mais curioso nisso é que, mesmo com esta repetida convivência, permanecemos desconhecidos uns aos outros. Isolamo-nos em cantos de elevadores atrás de caras fechadas e óculos escuros, evitamos a conversa em transportes públicos protegidos por aparatos portáteis de áudio e vídeo, vivemos encerrados dentro de carros, escondidos por vidros escuros, temerosos de qualquer um que se aproxime.

Todos os dias levantamos muros em lugares onde deveríamos estar construindo pontes. É certo que a influência que a aparência exerce sobre nós é inegável, levados pela superficialidade da imagem acabamos por ter medo do contato com o diferente. Caetano Veloso, na letra de “Sampa”, traduz perfeitamente este sentimento nos seguintes versos: “chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto” e “foste um difícil começo, afasto o que não conheço”.

Obviamente esse medo que ocasiona o individualismo não é em vão. Estamos sempre em contato com pessoas que nos relatam episódios violentos acontecidos consigo ou com conhecidos, mal conseguimos estacionar um carro, em qualquer lugar que seja, sem que precisemos, literalmente, pagar para não sermos roubados, hostilizados ou agredidos. No passado as cidades, com seus altíssimos muros, foram construídas pela insegurança que a selva causava aos indivíduos. A presente situação não é muito diferente: continuamos apavorados, mas desta vez dentro das cidades. Pavor este que fez com que nos escondêssemos mais ainda, atrás de grades, cercas eletrificadas, guardas armados, câmeras, alarmes e cães ferozes. Trocamos o conforto existencial pela segurança aparente.

Outro sociólogo, dessa vez o francês Michel Maffesoli, defende que ao invés de rotularmos pela aparência e nos afastar, devemos primeiro interagir, tentar compreender o diferente. Olhar o que não é igual sem raiva ou ódio, pois existem diversas maneiras de ser e pensar e nenhuma delas está mais correta do que a outra.

Sejamos compreensivos, tolerantes com o diferente. Porém críticos com os governantes que deveriam garantir a segurança da sociedade em geral, já que pagamos, e caro, por isso. Nossos políticos deveriam ser os primeiros a perceber os males que uma sociedade individualizada produz, e não usar nosso dinheiro para custear viagens internacionais ou pagar salários para parentes, mas em educação e segurança.

Termino este texto imaginando um mundo diferente, no qual não precisaríamos de muros para nos defender de nossos semelhantes. Um mundo no qual teríamos menos confronto e mais tolerância, menos empáfia e mais interação, menos desonestidade e mais compromisso, menos medo e bem mais esperança.

* Este texto foi publicado originalmente no jornal O Liberal do dia 08/08/09

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Sugestão para o dia das mães

Publicado por Gabriel Lage Neto em 06/05/2009

Neste dia das mães o melhor presente que você pode dar para a sua é este: nenhum. Quero dizer, nenhum presente material, nada do que anunciam incansavelmente na televisão que sua querida mãe merece. Nada de celulares, aparelhos de DVD, sapatos, roupas ou jóias, isso é papo furado de publicitário.

No lugar dessa parafernália supérflua e sem valor dê o que toda mãe quer de verdade, tudo bem, algumas até valorizam essas bobagens supérfluas, mas com certeza também apreciarão imensamente o que você tem a dar: amor.

No final das contas, todos os bens materiais exaustivamente comprados e pagos naquelas parcelas a perder de vista só dão alegria mesmo para as mães dos seus fabricantes e revendedores. A alegria da sua mãe por receber o presente dura o que? Na melhor das hipóteses, se ela gostar do que ganhou, um mês, ou até o celular quebrar, a roupa manchar e o sapato perder o salto, o que acontecer primeiro.

Amor de filho é um bem imperecível, com garantia pra vida toda e mais um pouquinho. Transforme esse dia criado pelo capitalismo apenas com o fim de lhe endividar e ganhar mais um dinheirinho em uma oportunidade de demonstrar seu carinho por sua mãe.

Ficamos combinados assim, então: Esqueça os shopping centers lotados e dedique o dia inteiro somente àquela que lhe ama com ou sem presentes nas mãos. No final ficará a certeza que dinheiro nenhum pode comprar, mesmo com todas as diferenças e desacordos, o amor de mães e filhos é um dos mais valorosos existentes.

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Mais Ianni e mais viagens

Publicado por Gabriel Lage Neto em 07/10/2008

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Viagens

Publicado por Gabriel Lage Neto em 29/09/2008

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