No dia 11 de outubro, calculadamente dois milhões de pessoas foram às ruas para demonstrar sua devoção à Nossa Senhora de Nazaré. Dois milhões que acompanharam a berlinda que levou a pequena santa da Catedral até a Basílica de Nazaré. Dois milhões que puxaram a corda ou que simplesmente caminharam pelo percurso entre os dois templos. Dois milhões que estiveram ali para agradecer, pedir, orar e ajudar. Não há ser humano que não se emocione diante de tais atos.
Esses dois milhões de pessoas, não só paraenses, não só brasileiros, sofridos e cansados que puxaram a corda da berlinda que levava a santinha, que carregaram sobre as suas cabeças pequenas casas, tijolos e órgãos de cera, que levavam nas mãos terços, orações e velas, que rezaram e cantaram durante a caminhada, apesar de serem extremamente diferentes, possuem muita coisa em comum. Cada um crê que as melhorias que precisam em suas vidas serão providas por Nossa Senhora.
Digo que são extremamente diferentes por que, não só em nosso estado, mas em nosso país, existe um abismo que separa as classes socioeconômicas, abismo este criado e mantido pelos que estão no poder. Porém, em Belém do Pará, pelo menos em um dia do ano, esse abismo desaparece e todos se tornam iguais. Os que assistem a procissão realmente são testemunhas de um verdadeiro milagre: nas horas que separam a saída da Sé e a chegada à Basílica de Nazaré, só o que se vê é solidariedade. Promesseiros ajudando promesseiros, voluntários que trabalham na Cruz Vermelha, centenas de pessoas que distribuem água aos fiéis, algumas por promessa e outras apenas pelo ímpeto de fazer uma caridade. Não há dinheiro ou etnia que atrapalhe.
O povo tem fé e confia na intercessão de Nossa Senhora de Nazaré junto a Deus para resolver, ou ao menos amenizar, suas mazelas. E eles ajudam, e muito, os que a eles recorrem. Mas para isso Nossa Senhora de Nazaré e Deus utilizam uma ferramenta indispensável: o próprio homem. Por isso, esse espírito de solidariedade não deve se restringir apenas a um domingo do mês de outubro, os cidadãos precisam continuar querendo bem e ajudando o próximo sem se importar com suas origens e, principalmente, os governantes devem ver o muito que ainda é preciso ser feito por esse povo que toma as ruas.
Não é preciso ser onisciente para saber do que o povo precisa: trabalho, segurança, saúde e educação. Está muito claro e só não vê, e não resolve, quem não quer. Dois milhões de pessoas é um número muito pequeno em relação à população de nosso país, mas deveria ser o suficiente para chamar a atenção dos que governam para o que tem que ser feito.
Duas semanas depois do segundo domingo de outubro, a santinha volta ao seu nicho, onde fica durante todo o ano, no Colégio Gentil Bittencourt. A imagem de Nossa Senhora de Nazaré que fica na Basílica Santuário sobe ao Glória. E novas demonstrações de fé, novos agradecimentos e novos pedidos por graças em busca de dias melhores voltamos a testemunhar. É como se nós, paraenses, estivéssemos vivendo o nosso Ano Novo, pois só daqui a um ano teremos novamente o nosso Natal, a santinha volta a ser reverenciada e é Círio novamente.
Seria ótimo se todos os governantes do Brasil pudessem assistir ao Círio de Nazaré e testemunhar os atos de fé, devoção, agradecimento e solidariedade popular. Quem sabe aprendessem alguma coisa com o exemplo dos promesseiros, talvez percebessem o peso da responsabilidade que têm nas mãos e que a solução de muitos problemas não requer um milagre muito poderoso, apenas trabalho. Infelizmente é improvável que os responsáveis pela situação na qual nosso estado e nosso país se encontram se sentissem tocados pela perseverança, pela força e pela crença do povo, pois é impossível crer que quem se beneficia à custa de tanta gente sofrida ainda possa ser considerado humano.
* Este texto foi originalmente publicado no jornal O Liberal do dia 24/10/09

