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Recordar é viver, embromar também

Publicado por Gabriel Lage Neto em 12/09/2008

Não, apesar do título, este post não é uma embromação. Geralmente o final da semana é bem mais corrido para mim do que os outros dias, estou fazendo quatro disciplinas no Mestrado e é texto para ler que não acaba mais. Some-se a isso um seminário que estou assistindo lá, palestras excelentes com professores brasileiros e espanhois que com certeza no final vão render bons devaneios por aqui.

Enquanto isso, não gostaria de deixar isso aqui parado, então resolvi linkar alguns textos que gosto muito do meu falecido blog. Não que alguém vá ler, mas pelo menos procurar os textos serviu para me deixar ocupado enquanto espero a hora de ir para a aula.

Pense Grande

Ok, esse decididamente não é um texto do qual eu goste muito. Mas ele foi o primeiro do Blog e achei relevante linkar aqui. É uma crônica muito da sua pretensiosa, metida a auto-ajuda de quinta categoria.

Declarações sobre a Matinta Perera

Esse é muito bom. Em 2005 eu estava no último ano da faculdade de Letras, no meu trabalho de conclusão de curso resolvi juntar as duas disciplinas que eu mais gostava: Literatura Amazônica e Literatura Comparada. No decorrer da elaboração do projeto precisei fazer algumas entrevistas com pessoas que tivessem tido contato ou conhecessem histórias de pessoas que tiveram contato com o Curupira ou com a Matinta Perera. Sem dúvida essa foi a melhor parte do trabalho. O texto desse post é um fragmento do depoimento do Jesiel, um trabalhador do Ver-O-Peso, mercado de Belém, que tinha algumas histórias para contar sobre a Matinta Perera, muito bom mesmo.

Declarações sobre o Curupira

Mesma história do post anterior. Só que agora é um depoimento sobre o Curupira feita pela dona Beth Cheirosinha, que também tem uma barraca no Ver-O-Peso.

Lei de incentivo ao banho

Um post bem engraçadinho. Escrevi depois de ter passado momentos agradáveis ao lado de pessoas que não levam em consideração a higiene pessoal e o direito do próximo de respirar pelo nariz.

Igual a Tudo na Vida e Mais “Igual a Tudo na Vida”

Dois posts com comentários a respeito do filme Igual a Tudo na Vida (Anything Else), escrito e dirigido pelo Woody Allen.

Equanto isso, em uma praia qualquer…

Um pequeno conto praiano.

Sensações

Outro conto, esse é um dos meus preferidos.

Ken Park

Um rápido comentário sobre o filme Ken Park.

Pequeno Manual Prático Para Sobreviver Em Cidades Estranhas Gastando o Mínimo Possível – PMPPSECEGOMP

Esse eu escrevi nos meus primeiros dias Em São Paulo, enquanto aguardava minha vez de ser entrevistado pelos professores da especialização. Infelizmente não consegui seguir o manual a risca.

Para o que a vida mandar

Um pequeno conto bem chatinho.

Fernando e Ana Rosa

Um micro conto. Apesar de ser bem pequeno é um dos meus preferidos também, um dia pretendo trabalhá-lo melhor. Sim, o nome da personagem foi inspirado na estação de mêtro.

Encontros e Desencontros

Não sei como classificar esse texto, acredito que seja uma crônica. Só sei que gosto muito.

Amor em tempos de Papa

Escrevi esse na ocasião da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, espero não ir para o inferno por causa disso.

Esperanças

Todo mundo espera alguma coisa.

Concurso

Dei uma melhorada no conto Sensações para participar de um concurso. Não ganhei nem um mentex, mas gostei muito mais dessa versão.

Manipulação

Um continho engraçadinho.

Confissões

Um texto no qual eu confesso ser o causador de todos os males do mundo.

Por favor

Também não sei como classificar esse, na verdade nem sei se gosto dele.

É bom… Mas é melhor ainda…

Outro inclassificável. Acredito que valha a leitura.

Retrospectiva 2005

Não sei por que diabos resolvi re-postar esse texto de 2006 nesse blog. Não tenho a menor idéia por que o estou linkando novamente aqui.

E é isso aí, vinte e um textos linkados. Confesso que esperava encontrar bem menos coisas aproveitáveis. Se houver alguma boa alma disposta a ler pelo menos um deles, peço paciência e compreensão, na época pontuar textos equivocadamente era quase um hobby para mim.

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Telma

Publicado por Gabriel Lage Neto em 11/08/2008

Pois essa que eu vou te contar é de mais ou menos dez anos atrás.

 

Era ano de eleição e eu estava trabalhando na campanha do seu Venâncio para deputado estadual. Reuni uma turma boa de conversa e todo dia íamos do comitê para as ruas, para fazer a propaganda do homem. Tudo ia muito bem.

 

O que acontece é que nos finais de semana a turma se reunia para ir ao boteco do Jurandir, um gordo moreno escuro que também estava trabalhando conosco na campanha. Nessas idas ao boteco bastante gente se juntava com a turma do comitê, irmão de um, amigo da outra, conhecido de sei lá onde. Em uma dessas apareceu por lá a Telma, prima do Jurandir.

 

Na semana seguinte correu a notícia de que o Marcelo, também da nossa turma, tinha se interessado pela Telma. Não me espantei, era uma morena boa, baixinha, mas boa. Tenho certeza que o Marcelo não foi o único da turma a reparar nela, eu mesmo dei minhas olhadas, mas como o outro falou primeiro, decidi ficar quieto.

 

Mais um fim de semana, todo mundo bebendo no boteco, clima de confraternização, a campanha ia bem segundo as pesquisas, se o seu Venâncio se re-elegesse todo mundo estava de emprego garantido na Assembléia. O Marcelo era o mais animado, ficou a noite inteira conversando com a Telma. Juro que fiquei feliz por ele, mesmo percebendo que ela não correspondia às investidas.

 

Pois bem no final da noite apareceu um negão do tamanho de um armário por lá. O Jurandir esqueceu de dizer que a prima era noiva. Por sorte nada aconteceu com o Marcelo, a turma explicou que todo mundo ali era amigo, e o negão, que era mais conhecido pelo seu apelido, Cruel, levou a Telma para longe dali.

 

Quatro dias depois o Jurandir veio falar comigo: “Rapaz, tenho uma notícia pra você”. Desconfiei logo: “É coisa boa ou ruim?”. Ele se abancou na minha frente, olhou pros lados e falou: “É um misto dos dois”. Dei uma risada: “Desabafa, Jura”. Ele riu também, e soltou: “A Telma perguntou por ti. Disse que, se quiseres, ela também quer”. Deixei o material da campanha que eu estava arrumando em cima da mesa, respirei e falei: “Porra Jura, quer o que? E o Marcelo? Mais importante ainda, e o Cruel, porra? Não me mete nessa”. O Jurandir fez uma cara de desconfiado, como se eu não estivesse com a razão. “Eu só sou o mensageiro, chefe, se você quiser chegar junto é só chegar, não tem bronca. Recado dado”. Concordei com a cabeça: “Recado dado, Jura. Agora vamos trabalhar”.

 

O problema é que a carne é fraca, companheiro. Não apareci no boteco no fim de semana seguinte, mas na sexta pedi pro Jurandir o telefone da prima. A imagem da morena ficou na minha cabeça a semana toda, não consegui pensar em mais nada, pro inferno com o Cruel, no sábado mesmo passei a noite com a Telma.

 

Depois falei com o Marcelo, ele disse que estava tudo bem, que a visão do Cruel o tinha desestimulado, me deu os parabéns e me recomendou cuidado. Apertamos as mãos e fomos ao trabalho. Com o passar do tempo todo o comitê já sabia do meu rolo com a Telma, às vezes ela aparecia por lá antes de sairmos pras ruas, às vezes quando voltávamos.

 

Eu não fazia perguntas. Tinha saído de um namoro longo e queria aproveitar, a Telma era perfeita pra ocasião, secretária de um escritório de advocacia, sem muita cultura, coitada, mas era esforçada: o que deixava a desejar no intelectual, compensava, e muito, em outras áreas, se é que o senhor me entende.

 

Final de campanha, seu Venâncio re-eleito, todo mundo feliz, o deputado deu um adiantado pro Jurandir e mandou fechar o boteco pra turma. Eu ainda estava com a Telma, mas confesso que já meio de banda, a Lívia, uma loirinha estagiária do jurídico da campanha, começou a se engraçar para o meu lado quando soube que eu ia ser o assessor direto do chefe.

 

Fui pra comemoração, mas com hora marcada pra sair, deixei a loirinha me esperando na casa dela, para irmos pra um lugar mais arrumado depois. No boteco abracei todo mundo, pulei e bebi com o Marcelo, sem tirar o olho do relógio. Faltando meia hora para eu sair o Jurandir me chamou no canto: “Outra notícia pra ti”. Não dei bola: “Fala Jura, fala de uma vez”. Ele abaixou o tom de voz: “O Cruel tá sabendo que alguém tá pegando a noiva dele, isso não vai acabar bem”. Não sei por que, mas não me abalei: “Que se dane o Cruel, Jura. Já estou saindo daqui, não quero mais nada com a tua prima, sabe a Lívia? Vou sair com ela agora”. Dei um Abraço no Jurandir, me despedi da Telma e parti.

 

No outro dia meu telefone tocou cedo, a Lívia nem acordou, só virou para o lado. Era um rapaz do comitê, ligou para avisar que o Marcelo, a Telma e o gordo Jurandir tinham sido assassinados de madrugada no boteco, ninguém sabia do motivo, o cara entrou, atirou nos três, e foi embora sem levar nada. Falei que ia avisar o seu Venâncio e que ia tratar de tudo. Desliguei o telefone, caminhei até a janela e fiquei pensando por alguns minutos, as ruas ainda estavam vazias, mas em menos de uma hora o movimento de mais um dia de trabalho iria tomá-las. Por fim, me deitei com a Lívia e concluí que tudo ficaria bem, no ano novo eu ia estar bem empregado e isso tudo não seria mais do que uma má lembrança.

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