Individualismo e medo
Publicado por Gabriel Lage Neto em 12/08/2009
Uma das principais marcas da sociedade contemporânea é o individualismo. Os centros urbanos são caracterizados por reunir a maior parte da população de um país, e no meio desses milhões de pessoas, por mais que algumas tentem, nenhuma consegue ser igual à outra. Temos diferentes gostos musicais, diferentes crenças e religiões, diferentes modos de agir, vestir e de nos relacionar com o próximo.
Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, as cidades sempre foram lugares onde convivemos diariamente e muito proximamente com estranhos, cuja maneira de pensar e intenções nós ignoramos. O que é mais curioso nisso é que, mesmo com esta repetida convivência, permanecemos desconhecidos uns aos outros. Isolamo-nos em cantos de elevadores atrás de caras fechadas e óculos escuros, evitamos a conversa em transportes públicos protegidos por aparatos portáteis de áudio e vídeo, vivemos encerrados dentro de carros, escondidos por vidros escuros, temerosos de qualquer um que se aproxime.
Todos os dias levantamos muros em lugares onde deveríamos estar construindo pontes. É certo que a influência que a aparência exerce sobre nós é inegável, levados pela superficialidade da imagem acabamos por ter medo do contato com o diferente. Caetano Veloso, na letra de “Sampa”, traduz perfeitamente este sentimento nos seguintes versos: “chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto” e “foste um difícil começo, afasto o que não conheço”.
Obviamente esse medo que ocasiona o individualismo não é em vão. Estamos sempre em contato com pessoas que nos relatam episódios violentos acontecidos consigo ou com conhecidos, mal conseguimos estacionar um carro, em qualquer lugar que seja, sem que precisemos, literalmente, pagar para não sermos roubados, hostilizados ou agredidos. No passado as cidades, com seus altíssimos muros, foram construídas pela insegurança que a selva causava aos indivíduos. A presente situação não é muito diferente: continuamos apavorados, mas desta vez dentro das cidades. Pavor este que fez com que nos escondêssemos mais ainda, atrás de grades, cercas eletrificadas, guardas armados, câmeras, alarmes e cães ferozes. Trocamos o conforto existencial pela segurança aparente.
Outro sociólogo, dessa vez o francês Michel Maffesoli, defende que ao invés de rotularmos pela aparência e nos afastar, devemos primeiro interagir, tentar compreender o diferente. Olhar o que não é igual sem raiva ou ódio, pois existem diversas maneiras de ser e pensar e nenhuma delas está mais correta do que a outra.
Sejamos compreensivos, tolerantes com o diferente. Porém críticos com os governantes que deveriam garantir a segurança da sociedade em geral, já que pagamos, e caro, por isso. Nossos políticos deveriam ser os primeiros a perceber os males que uma sociedade individualizada produz, e não usar nosso dinheiro para custear viagens internacionais ou pagar salários para parentes, mas em educação e segurança.
Termino este texto imaginando um mundo diferente, no qual não precisaríamos de muros para nos defender de nossos semelhantes. Um mundo no qual teríamos menos confronto e mais tolerância, menos empáfia e mais interação, menos desonestidade e mais compromisso, menos medo e bem mais esperança.
* Este texto foi publicado originalmente no jornal O Liberal do dia 08/08/09