VerdadeSejaDita

Posts de Agosto, 2009

Estamos fartos!

Publicado por Gabriel Lage Neto em 24/08/2009

De acordo com o artigo 5º da constituição federal, todos os brasileiros são iguais perante a lei, sem qualquer tipo de distinção. Sendo essa determinação de conhecimento público, é muito estranho que em nosso país, há bastante tempo, ocorram certos fenômenos que nos fazem duvidar da seriedade com que as autoridades encaram estas tão importantes determinações.

A ignorância sempre serviu de álibi para justificar as falhas. Em nosso país o “eu não sabia de nada” tornou-se praticamente um bordão de uso obrigatório daqueles que querem se desvencilhar de irregularidades cometidas. Alegando desconhecimento do que é correto, muitos já usaram e abusaram da ingenuidade e paciência de nosso povo: é dinheiro público que leva a família do político para o exterior, que banca o lazer da namorada famosa (que também não sabia de nada), que paga o salário do namorado da neta. Tudo sempre é perdoado sob a alegação de suposto ressarcimento dos valores ou de que essas coisas são normais, jogos do poder.

Atos como estes são punidos? Sim, esporadicamente. Porém, alguns anos depois, os envolvidos nessas nebulosas questões surgem novamente, como em um passe de mágica. Cumprem seu “exílio político”, geralmente passado no exterior, e refazem seu caminho do ostracismo até ao governo, como no princípio, erguidos pelos braços populares. Desmemoriados populares.

Por que isso acontece? Por que o indivíduo comum quando rouba é preso, torturado e até morre nas nossas superlotadas prisões, enquanto os engravatados de colarinho branco recebem afagos nas cabeças, tapinhas nas costas e continuam no poder? Será que a era dos jurássicos coronéis ainda não passou? Será que ainda se consegue ganhar no grito e na batida de pé? Diariamente o povo é atingido por acontecimentos que mostram quão demagogo o discurso governamental ainda consegue ser.

A impunidade dos políticos, estes cidadãos de imagem pública, acaba se refletindo nos indivíduos comuns e até naqueles que deveriam cuidar para que as leis fossem cumpridas por todos. Pouco a pouco vemos as sementes podres plantadas pelos poderosos germinarem no ventre da sociedade.

Indivíduos considerados “bem nascidos” roubando, agredindo, seqüestrando e matando já não são mais personagens de novela. São bem reais e estão mais próximos do que imaginamos. Profissionais respeitados e reconhecidos são autores dos mais revoltantes crimes.

Não podemos deixar que o poder seja um passe livre para burlar as leis, para ofender, humilhar e violentar quem quer que seja. A corrupção política serve de exemplo para o abuso de autoridade que serve de exemplo para a prática criminosa do cidadão. Todas estas práticas estão garantidas pela segurança da impunidade, pela falsa valentia escondida atrás do famoso “sabe quem eu sou?”.

Todos sabemos quem somos: indivíduos comuns, iguais perante a lei, sem nenhum tipo de distinção; brancos, negros, amarelos ou vermelhos; pobres ou ricos; homens ou mulheres. Somos iguais em direitos e obrigações. Nossa intimidade, honra e imagem são invioláveis. Possuímos livre pensamento e expressão. Diante de tanta impunidade, rejeitamos o anonimato e, todos juntos, declaramos publicamente: estamos fartos!

Este texto foi publicado originalmente no jornal O Liberal, no dia 21/08/09

Enviado em Pensamentos, opinião, verdade | Tagged: , , , | Deixar um comentário »

Individualismo e medo

Publicado por Gabriel Lage Neto em 12/08/2009

Uma das principais marcas da sociedade contemporânea é o individualismo. Os centros urbanos são caracterizados por reunir a maior parte da população de um país, e no meio desses milhões de pessoas, por mais que algumas tentem, nenhuma consegue ser igual à outra. Temos diferentes gostos musicais, diferentes crenças e religiões, diferentes modos de agir, vestir e de nos relacionar com o próximo.

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, as cidades sempre foram lugares onde convivemos diariamente e muito proximamente com estranhos, cuja maneira de pensar e intenções nós ignoramos. O que é mais curioso nisso é que, mesmo com esta repetida convivência, permanecemos desconhecidos uns aos outros. Isolamo-nos em cantos de elevadores atrás de caras fechadas e óculos escuros, evitamos a conversa em transportes públicos protegidos por aparatos portáteis de áudio e vídeo, vivemos encerrados dentro de carros, escondidos por vidros escuros, temerosos de qualquer um que se aproxime.

Todos os dias levantamos muros em lugares onde deveríamos estar construindo pontes. É certo que a influência que a aparência exerce sobre nós é inegável, levados pela superficialidade da imagem acabamos por ter medo do contato com o diferente. Caetano Veloso, na letra de “Sampa”, traduz perfeitamente este sentimento nos seguintes versos: “chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto” e “foste um difícil começo, afasto o que não conheço”.

Obviamente esse medo que ocasiona o individualismo não é em vão. Estamos sempre em contato com pessoas que nos relatam episódios violentos acontecidos consigo ou com conhecidos, mal conseguimos estacionar um carro, em qualquer lugar que seja, sem que precisemos, literalmente, pagar para não sermos roubados, hostilizados ou agredidos. No passado as cidades, com seus altíssimos muros, foram construídas pela insegurança que a selva causava aos indivíduos. A presente situação não é muito diferente: continuamos apavorados, mas desta vez dentro das cidades. Pavor este que fez com que nos escondêssemos mais ainda, atrás de grades, cercas eletrificadas, guardas armados, câmeras, alarmes e cães ferozes. Trocamos o conforto existencial pela segurança aparente.

Outro sociólogo, dessa vez o francês Michel Maffesoli, defende que ao invés de rotularmos pela aparência e nos afastar, devemos primeiro interagir, tentar compreender o diferente. Olhar o que não é igual sem raiva ou ódio, pois existem diversas maneiras de ser e pensar e nenhuma delas está mais correta do que a outra.

Sejamos compreensivos, tolerantes com o diferente. Porém críticos com os governantes que deveriam garantir a segurança da sociedade em geral, já que pagamos, e caro, por isso. Nossos políticos deveriam ser os primeiros a perceber os males que uma sociedade individualizada produz, e não usar nosso dinheiro para custear viagens internacionais ou pagar salários para parentes, mas em educação e segurança.

Termino este texto imaginando um mundo diferente, no qual não precisaríamos de muros para nos defender de nossos semelhantes. Um mundo no qual teríamos menos confronto e mais tolerância, menos empáfia e mais interação, menos desonestidade e mais compromisso, menos medo e bem mais esperança.

* Este texto foi publicado originalmente no jornal O Liberal do dia 08/08/09

Enviado em Pensamentos, opinião, verdade | Tagged: , , , | Deixar um comentário »