Educação contra a violência
Publicado por Gabriel Lage Neto em 27/07/2009
Chega a impressionar o volume de notícias sobre crimes hediondos que têm sido bombardeadas sobre a sociedade brasileira nos últimos tempos. Fazendo rápidas leituras em sites jornalísticos nacionais podemos perceber este fato através de manchetes como: casal de agricultores e filho de 11 anos são mortos no Pará, filho esfaqueia pai por causa do volume da televisão em Alagoas, mãe e filho são mortos a tiros e facadas em Pernambuco e chacina de uma família choca paraibanos.
Uma maneira de se explicar o inexplicável (ou seja, a razão pela qual estas barbáries acontecem, deixando de lado os motivos inspiradores dos crimes, geralmente banais) é indicar que os criminosos são pessoas sem instrução. Não deixa de ser uma afirmação correta, porém a instrução necessária a todos nós é muito maior do que aquela ensinada em salas de aula. O Brasil é claramente um país deficiente em educação, e aqui não me refiro somente à educação que deveria ser garantida pelo governo e pela sociedade através de instituições de ensino públicas e particulares.
O nível do ensino em nosso país, ao contrário do que dizem as sazonais propagandas políticas, está bem abaixo do aceitável. Nossas crianças e adolescentes entram em contato cada vez mais cedo com temas como violência e sexualidade sem terem uma apropriada preparação intelectual para distinguir o que é certo do que é errado, deixados à própria sorte para fazerem suas escolhas e deduções.
As crianças desorientadas de hoje viram os pais despreparados de um amanhã nem um pouco distante, já que a gravidez no início da adolescência é um fato que não causa mais nenhum espanto em nossos dias. A maioria desses pais sem preparo dará aos seus filhos o mesmo tratamento que lhes foi dispensado na infância, completando assim o círculo sem fim do descaso educacional ao qual os pequenos já estão mais do que acostumados.
No início deste texto falei sobre uma educação que ultrapassa aquela que é ensinada nas salas de aula, e que, com certeza ajudaria muito a diminuir o nível da violência não só no Brasil, mas no mundo, esta é a educação mitológica. Já há algum tempo me interesso em ler sobre mitos de várias partes do Oriente e do Ocidente, incluindo alguns brasileiros, e posso dizer que a mitologia nada tem a ver com histórias fantasiosas ou imaginárias, ela está presente em nosso cotidiano sem que percebamos, nos ajuda a compreender quem somos e o mundo no qual vivemos.
Alguns personagens mitológicos são verdadeiros porta-vozes da valorização da vida humana. Conhecer seus exemplos certamente levaria um indivíduo a entender que ao dar cabo da vida de um de seus semelhantes está também privando alguém de seguir seu curso natural, de atingir todo o potencial ao qual todos estamos destinados.
É certo que vivemos em um mundo intelectualmente desmitologizado e que, há algum tempo, a mitologia não tem lugar na educação da sociedade. Talvez isso se deva a, errônea, dedução de que mito é igual a mentira. Personagens mitológicos estão por toda a parte, geralmente são entes sobrenaturais, mas também podem ser pessoas de carne e osso, conhecidas por grandes atos, como Martin Luther King, Gandhi, Betinho e, até mesmo, Buda e Jesus Cristo.
Invistamos, então, na educação mitológica, e não a destinemos somente às crianças, mas sim à sociedade em geral. Veremos que assim a sapiência ganhará da ignorância, o diálogo da agressão e a pena, final e definitivamente, da espada.
Este texto foi originalmente publicado no jornal O Liberal do dia 25/07/09.